sábado, 27 de agosto de 2011

Pará - A primeira de muitas visitas...


   Recentemente fui a Belém para trabalhar num dos melhores restaurantes da cidade, o La Madre. No entanto, não escreverei sobre cozinha, rotina cansativa e todos os problemas que cercam minha profissão. Quero falar sobre a riqueza cultural desse lugar e da pluralidade de uma gastronomia permeada de influências ribeirinhas e aromas vindos das matas nativas.

   Lá, tive o prazer de tomar tacacá no final da tarde e aliviar um pouco o calor da cozinha me refrescando com sorvete de tapióca. Aos desacostumados com os nomes dos pratos e ingredientes do norte/nordeste, o tacacá é um preparo à base de tucupi, jambu, camarão seco e goma que é opcional. O tucupi é um líquído amarelo extraído da mandioca brava que depois de descascada e ralada é colocada no tipiti (artefato feito de palha que serve como prensa) fazendo gotejar e fermentar este caldo. O jambu é uma verdura bem comum no Pará que produz uma sensação táctil  muito peculiar, ela amortece a mucosa da boca, é muito bacana!


(Olha o tacacá aí, servido em cumbucas marajoaras e não se usa colher para tomar)

   Remanso do Peixe, um restaurante situado numa vila foi o responsável por uma refeição deliciosa que devo agradecer à família Castanho, em especial, ao amigo Thiago Castanho que hoje em dia divide a cozinha com seu irmão mais novo Felipe. Começamos nosso almoço com uma porção de bolinho de piracuí que é servido com maionese caseira de alho. O piracuí é uma farinha de peixe (pira = peixe + cuí = farinha) obtida mais comumente dos peixe acari ou tamuatá. De prato principal, comi uma moqueca paraense desenvolvida exclusivamente no Remanso que estava maravilhosa!!! Borbulhando em panela de barro o peixe filhote foi cozido em caldo de tucupi com jambu, pimentões, cebola, tomate, ovos cozidos, rodelas de batata e os camarões que entram só no final do cozimento e mantém sua consistência perfeita! Ela tem um caldo levemente espessado que temperei com uma conserva especial de pimenta comari-do-pará. Uma refeição para ficar na memória!


(foto retirada na internet, crédito: Restaurante Remanso do Peixe)


(Hettore, Eu e Thiago Castanho na entrada do Remanso do Peixe)

   A visita ao mercado municipal Ver-o-peso, carinhosamente chamado pelo paraense de Veropa, foi um capítulo a parte. Cheguei bem cedo e meus amigos Thiago Castanho e Gustavo Rodrigues me levaram para tomar café-da-manhã com direito a tapióca, 'pão caseirinho', suco de bacuri e cupuaçu. Era tanto nome diferente, aromas e sabores inusitados que fica até difícil de descrever, mas vou citar alguns...Bacuri, tucumã, taperebá, uxi, muruci, aviú, cumaru, maniva, pirarucu, entre outros tantos que nem consigo me lembrar direito. Sem contar as 'garrafadas' que prometem curar até dor de corno!


(Balcão com mantas de pirarucu salgado no Ver-o-peso)

   É uma cidade tão quente, tão quente que o carro preto de um amigo que não possui ar-condicionado foi apelidado de microondas. Aliás, outro amigo defende que os aparelhos de ar-condicionado deveriam ter incetivo fiscal do governo e isenção de ICMS de tão quente que é aquela cidade. Imaginem dentro da cozinha de um restaurante funcionando a todo vapor...Derrete o cérebro! Esse clima não só convida como quase impõe uma cervejinha gelada no final de tarde comendo um caranguejo cozido com chicória-do-pará, que por lá eles chamam de caranguejo toc-toc, uma alusão ao barulho dos martelinhos quebrando a casca deste crustáceo nas tábuas.

   No meu último dia, fui convidado para um almoço tipicamente paraense onde tivemos caranguejo toc-toc de entrada, pato no tucupi como principal e açai com farinha de tapióca de sobremesa. Devo toda esta hospitalidade a D. Ângela, uma paulista que conquistou o paranense pela boca e trabalha no segmento de restaurantes há 20 anos. Pretendo voltar muitas vezes a essa terra de ingredientes insólitos e povo amistoso que me recebeu acolhedoramente.

   Isso é Belém, isso Pará, isso é Brasil !!!

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